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18
Sáb, Set

Choro e falta de atenção desafiam alfabetização no ensino a distância

Notícias EAD

A alfabetização de crianças é um processo que demanda tempo e empenho tanto de professores como das famílias dos estudantes para garantir um aprendizado pleno e na idade adequada, que é de suma importância, uma vez que escrita, leitura e interpretação de texto são habilidades primordiais para a vida escolar.

A alfabetização de crianças é um processo que demanda tempo e empenho tanto de professores como das famílias dos estudantes para garantir um aprendizado pleno e na idade adequada, que é de suma importância, uma vez que escrita, leitura e interpretação de texto são habilidades primordiais para a vida escolar.

O ensino a distância, forçado pela pandemia de Covid-19, trouxe novos desafios diante do afastamento do ambiente escolar, necessidade maior de participação familiar no acompanhamento das atividades escolares, uso de ferramentas de tecnologia e dificuldades de concentração por parte das crianças são alguns dos desafios impostos por essa nova realidade.

"Os alunos ficavam todos conversando, outros chorando"

Tudo isso é vivenciado por Lucicleide Campos da Silva, de 38 anos, e sua filha, Nikole, que já estava matriculada no colégio desde que tinha 1 ano e meio de idade, sendo afastada do convívio com colegas e professoras quando a Covid-19 se tornou uma realidade no Brasil e trouxe consigo uma série de dificuldades tanto para o aprendizado da menina como para a família como um todo.

“É muito difícil, porque ela não se concentra. É muito estressante para ela. Tivemos muita dificuldade porque ela não prestava atenção na aula, os alunos ficavam todos conversando, outros chorando. Para nós, pais, também é muito estressante. Eu chorava, grávida, enjoada e sem paciência”, contou Lucicleide, que também é mãe do pequeno Nikolas, de 5 meses.

A falta do ambiente escolar e a longa permanência em casa devido ao medo da Covid-19, segundo Lucicleide, estressam Nikole, que tem muita energia e reclama constantemente de saudades. Esses problemas começaram a causar problemas de aprendizagem à menina, segundo sua mãe, especialmente quando a alfabetização foi iniciada.

“Ela acompanha a turma, mas não como deveria. Já escreve o nome dela, sabe os números, mas não sabe ler ainda. Nós tivemos muita dificuldade, Nathan [pai] pensou em tirar ela da escola porque a gente não estava conseguindo”, contou Lucicleide. A solução encontrada pela família, após conversar com a professora da criança, foi contratar aulas presenciais de reforço somente para ela, na casa de sua professora. “A aula fica gravada e a professora passa o conteúdo só para Nikole. Aí foi dando uma melhorada. Em casa ela não se concentra, por isso mesmo que contratamos a professora. É mais um espaço, é diferente. Quando eu falo que ela vai à casa da professora, ela já se anima porque vai sair de casa”.

Mesmo diante da melhora no aprendizado de sua filha, Lucicleide ainda teme pelo cenário que ela, seu marido e a pequena Nikole enfrentarão no próximo ano, com eventuais lacunas que poderão ficar pelas dificuldades que enfrentam agora. “Se não fosse por isso que estamos vivendo longe da escola dos amiguinhos dela, da rotina dela, seria muito diferente. Eu acho que a criança tem mais estímulo de ir à escola. Ela chora para ir, chora quando lembra dos amiguinhos”, relata a mãe.

"A família precisa estimular a criança"
A pedagoga Joseane Guilhermino do Nascimento, de 35 anos, tem especialização em Psicopedagogia e Gestão Educacional e atualmente trabalha na Escola Municipal Santa Maria, em Camaragibe, e na Escola Evangélica Gideão, no Recife. Ela explica que já existem dificuldades com falta de apoio familiar e alto número de alunos em sala nas aulas presenciais, mas tudo se complica no sistema remoto.

“Sabemos que crianças têm um conhecimento digital, mas em sua maioria, dependem dos pais para o uso do celular. No horário de aula, os pais estão trabalhando muitas vezes, o acompanhamento é feito por parte dos avós, que sentem dificuldade no manuseio do celular. Quando vamos para a escola pública, torna-se ainda mais difícil pelas condições financeiras da família sem acesso à internet, outros não têm nem celular, ou um celular para duas, três ou até mais crianças”, explicou ela.

Ela também explica que sim, é possível alfabetizar durante a pandemia, desde que algumas condições sejam respeitadas e haja empenho da família, estudante e professores. “Em primeiro lugar, é preciso manter a rotina de estudos para haver um melhor aproveitamento da aprendizagem. Ter um lugar reservado para a criança estudar, com uma boa iluminação. O material de aula deve estar separado, os aparelhos em casa como televisão, devem estar desligados, qualquer coisa que venha tirar a atenção desta criança. A família precisa estimular a criança a participar das atividades remotas. Não responder por ela, mas está por perto para auxiliar em algo que a criança precise”, disse a pedagoga.

Mesmo com todo o empenho de educadores e familiares, Joseane afirma que nos próximos anos teremos que lidar com diversas defasagens na educação causadas pela Covid-19, algumas delas, inclusive, em questões que vão muito além da alfabetização e conteúdos de aula.

“O ensino básico, além do desenvolvimento de habilidades linguísticas possibilita também a interação, convivência com o diferente, respeito as diferenças, etc. Não há como mensurar ainda como estarão essas crianças nos próximos anos, com tudo que está sendo ‘perdido’ agora. Mas presume-se que teremos a curto prazo estudantes com defasagens ainda maiores do que as que já são comuns em nosso sistema educacional tão deficitário”.

Fonte: Diario de Pernambuco